...e o mundo acabou 1
O barulho de abrir sacolas parece o de um osso quebrando depois que se passa tempo o bastante fazendo essa tarefa repetitiva. Você puxa pelo meio da sacola, apenas o bastante pra conseguir separar um lado do outro, e quando a mínima abertura é feita no meio da sacola, então vrup! Você chacoalha ele com força como se estivesse indo estender uma roupa nova. A maioria dos clientes se atrapalha abrindo sacola porquê eles tentam abrir como se fosse uma sacola normal, mas o truque pra fazer isso rápido é justamente fazer o máximo de força possível pra abrir, como se estivesse com raiva daquilo.
Eu acho que quando comecei a trabalhar no supermercado de algum modo eu tinha sim raiva disso, de ter que trabalhar em um "subemprego", de ter que ver de relance o olhar decepcionado de alguns e a piada de outros, como se fosse algo vergonhoso. Acho que de certa forma eu tinha um pouco de orgulho de trabalhar em um lugar tão oriundo, uma mistura entre vergonha e orgulho, "eu estou cansado demais, eu trabalho num supermercado afinal de contas", como se fosse a coisa mais difícil já feita por um ser humano.
Também não dá pra dizer que é uma tarefa fácil, tem que se acostumar com o barulho constante do BIP! de um produto sendo registrado. Pra quem vai pro supermercado uma vez ou outra na semana, ou até diariamente, pode achar tranquilo esse barulho, ou até achar conforto, mas eu odeio esse BIP! com uma força gigante.
É como se fosse um parafuso na minha cabeça que vai se movendo milimetricamente mais fundo a cada vez que eu ouço esse som robótico, lentamente se instalando em mim quase até o ponto da loucura, na maioria dos supermercados eles colocam esse barulho num tom normal, mas onde eu trabalho os chefes (ou "gestores", como preferem chamar aqueles que só querem fuder com a vida dos "colaboradores), tem um medo absurdo de roubarem algum produto no caixa de auto atendimento, então fazem questão de colocar o som de todos os auto falantes no máximo. Então sempre que um cliente passa um produto, a máquina grita BIP! Outro produto, BIP! Banana, BIP! Tangerina, BIP! BIP! BIP! BIP! BIP!
E isso durante o dia inteiro, pois apesar dessa sinfonia de gritos que os clientes são forçados a ouvir, eles sempre voltam por sermos o supermercado com os menores preços da região.
Dia após dia eu abro as sacolas e fico de olho no caixa de autoatendimento para ver se alguém não está roubando, não é muito mas é tudo o que eu tenho, eu não tenho necessidade de nada mais, minha vida é acordar, trabalho, voltar pra casa, dormir, quem sabe assistir um jogo de futebol durante o almoço, e mais trabalho. A única coisa que me traz conforto nessa vida é a certeza de bater ponto todos os dias no mesmo lugar, e hoje é um dia especial, segunda feira no início de mês, quase nenhum cliente, e uma das raras vezes que a loja está vazia e o silêncio toma conta.
Não tem nenhum afazer, nada para limpar, ninguém para "render", então eu fico encostado num dos caixas de autoatendimento passando o tempo, até que eu ouço um barulho que parece um ranger de dentes e o barulho fino de plástico de um dos totens.