o ônibus
Já perdi a conta dos anos que ando neste ônibus. 7? 9? Desde que me entendo por gente, estou aqui, no ônibus SV666.
Na verdade, é o SV665, mas o 5 está quebrado e parece um 6. Faz sentido. Metade dos assentos tem o estofamento roubado, o ar nunca funciona, a catraca vive cobrando duas passagens e o troco, se houver, é só em moedas de cinco. Um inferno sobre rodas.
Por isso quase ninguém sobe. Além, é claro, de mim, e do medo que causo.
Dizem: “É o vampiro do ônibus. Vai sugar seu sangue e você desce parecendo uma uva-passa.” Detesto uva-passa. Uma vez roubei restos de ceia de Natal do motorista e foi tortura.
Mas o que realmente aterroriza as pessoas é outra história: “Dizem que, há muito tempo, quando o ônibus lotou, o motorista não deixou ninguém descer pela frente. Perderam o ponto e saíram por trás.” Nesse ponto, todos se arrepiam.
Eu só queria descansar.
Alguns dias são bons: a vista, a brisa pela janela quebrada, a vida passando. Mas sempre algo estraga. Dormir de lado dói as costas; sentado, os joelhos batem no vão; recostar na janela, aquela barra maldita.
E quando enfim encontro uma posição, uma freada brusca me arremessa para frente. Quando me seguro, a estrada treme e a cabeça explode. Quando silencia, o silêncio é tão alto que minha respiração vira um grito.
É como uma gosma invisível entrando em todos os poros, sussurrando em letras garrafais: ESTEJA ALERTA.
E eu fico. Olho fixo, mãos cravadas na barra, músculos tensionados contra cada solavanco. Até que, num sinal vermelho, o ônibus para de repente.
Clak!
O joelho quebra. Um fio escuro escorre, depois jorra. Ninguém vem. Ninguém vê. O sinal abre e o ônibus arranca com violência, jogando meu corpo para frente, e vejo o osso rasgando a pele. O sangue encharca o banco.
Sei o poder que ele tem sobre mim, mas preciso ficar alerta. Até que, ao enxugar o suor, um respingo me atinge a face.
E o sangue grita: FUJA!
Então me curvo e começo a devorar meu próprio joelho.
O prazer invade como uma onda. Solidão, dor, cansaço, tudo se dissolve. Só existe o sangue. Nada mais importa, nem o ônibus, nem o mundo lá fora. Devoro carne, tendões, até que só restem ossos. Limpos, leves, brancos.
O êxtase se esvai com a última gota. E então, a escuridão.
A luz sempre volta.
Um novo dia começa com o tremor do motor. Estou sentado novamente, com cheiro de pão de queijo e café no ar. Joelho perfeito. Pele pálida, intacta. A fome, adormecida.
E o cansaço, eterno.
Queria ter sido um daqueles vampiros que queimam no sol. Mas a única coisa que me dá vontade de morrer é a noite.